
NOTA DE PESAR
O Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana (FFLCH – USP) lamenta profundamente o falecimento do professor Gil Sodero de Toledo, professor aposentado do Departamento de Geografia, no dia 5 de março de 2026.
Neste momento do seu falecimento é nosso dever rememorar e homenagear o grande professor que Gil Sodero de Toledo foi. Infelizmente, a cultura acadêmica reinante em nosso meio não prestigia tanto as práticas docentes, tratando-as como menores diante de outras atividades, mas para quem foi aluno de Gil Sodero isso soa como absurdo. Sua vocação (e paixão) pedagógica transformava suas aulas em momentos de formação inusitados. Nada muito convencional, com muitas práticas construtivas e criativas. As aulas de campo que ele organizava com o intuito de promover uma experiência direta com os fenômenos climáticos em sua variação escalar, nas escarpas da Serra do Mar, em Guarulhos, onde seria construído o aeroporto, e tantas outras, eram um empreendimento pedagógico inesquecível para quem as vivenciou.
A formação dos alunos e o desenvolvimento do ensino da geografia estavam no centro de sua atividade e isso ele realizou para além dos muros da Universidade de São Paulo, liderando projetos junto à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo nos quais ele promovia encontros de professores no sistema de ensino com os docentes e pós-graduandos do Departamento de Geografia. Ele sempre foi incansável na busca dessa aproximação da universidade com a vida corrente. Nesse campo ainda, do ensino da geografia, vale mais uma lembrança sobre um trabalho esquecido. Num dado momento, ele juntamente com dois outros professores importantes do Departamento (Nelson de La Corte e Manoel Seabra) produziram um livro didático para o Telecurso 2º Grau. Gil era o responsável pela geografia física. Um primor. Era o melhor do saber científico da universidade pedagogizado de forma consistente, algo muito diferente do que se fazia na época nesse campo de livros didáticos. Merece ser recuperado.
Estas características de Gil Sodero também se manifestavam nas orientações que ele desenvolveu junto ao Programa de Pós-graduação de Geografia Física. Nessa atividade ele demonstrava um espírito aberto e fina capacidade de transitar com sabedoria para além da área de sua atividade principal, a climatologia. E muitas de suas orientações estavam no campo da relação do saber geográfico e o ensino de geografia, relação que sempre o deixava inquieto e com questionamentos críticos colocados a seus alunos de pós-graduação.
O professor Gil nos ensinou a ler a paisagem sem o olhar prévio das ideologias. Nos ensinou a levantar os aspectos físicos e sociais dos lugares, por meio do contato e conversas com a comunidade. Nos cursos para professores que ministrava pelo país afora, levava consigo sua Catarina, a maleta repleta de instrumentos adaptados para experimentos com os alunos no decifrar dos fenômenos climáticos. Lá tinha termômetros, latas, areia, pedra, bulbo seco, bulbo úmido, lâmpadas, soquetes, fios... que se transformavam em experimentos que os professores levariam para o aprendizado da climatologia e da geomorfologia de seus alunos.
Gil Sodero sempre esteve presente quando precisamos dele, seja como orientador, seja como amigo, seja como consultor de literatura de ficção científica, como um amante dos discos de vinil, de preferência de Clara Nunes, e principalmente como assíduo e afiado participante dos festivais de cinema de São Paulo. Precisava de um livro - quando ainda liamos livros? Passe na sala do Gil e peça emprestado. Ele tinha uma grande biblioteca em sua sala do canto da extrema esquerda do prédio do Departamento de Geografia, que não se limitava à Geografia Física, ao contrário. Ela foi se exaurindo com o passar dos anos... poucos devolviam. Mas ele não se incomodava.
Com o professor Gil conhecemos a culinária japonesa rústica da zona do mercado, nos anos 1980. Com ele também rodamos a RMSP e litoral com a kombi da FFLCH apresentando a Catarina para os professores e aprendendo mais sobre a paisagem, as comunidades, o tempo e o clima, o relevo, a vida.
Este foco muito especial na docência que Gil praticou em sua época, era um pouco o espírito do Departamento da Geografia (ele dizia isso) e a certa efemeridade que essa condição continha (contém) traz o risco do legado de um grande professor como Gil se esvair. Nada mais injusto, pois seu legado encontra-se presente na formação de tantos no mundo da geografia, muito além do que ele modestamente pretendia e imaginava.